Nó de garganta
Nó de garganta
Kathléen Carneiro
Nó de cadarço, nó de corda, nó de fita, nó de cabelo, nó de escoteiro, nó de caminhoneiro, nó de pescoço e até nó de garganta. Quantos nós não existem? Quantos nós não nos colocam a beira de um precipício de lágrimas? Quantos nós não são de solidão e desamparo? Quantos nós não são uma consequência do eu? Nó é sinônimo de apego ou algo preso – estar preso. Nós é sinal de apego a outro alguém ou estar sozinhos juntos. Nó se dá em objetos, nós somos com pessoas. É o plural mais singular que existe.
Será isso coisa da vida?
Quando o peito aperto e o nó sobe a garganta, queremos chorar, mas só nos resta segurar. Ele se transforma em sapo e chega ao nosso âmago com a acidez de um limão chupado. Dói. Tanto o nó quanto a dó, dói. Nesses momentos, poucas palavras vêm à tona, porque um duelo começa: ou você responde e chora ou você se engasga e quase chora. Lágrima escorrida é vulnerabilidade, então a gente se derrama por dentro.
A vida tem dessas.
“Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso ― o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.”
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas, 1956.



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