Aprendi a nadar e continuo a nadar!


Aprendi a nadar e continuo a nadar!
Kathléen Carneiro

Alguns meses atrás, eu (forçadamente) comecei a fazer aulas de natação. Foi por uma questão de saúde, principalmente por causa do meu joelho esquerdo que já veio com um pequeno defeito de fábrica (frouxidão ligamentar). Essa nova atividade física tem me permitido viver muitas novas crises existenciais e tem me curado na mesma medida que tem me incomodado.

Comecei a nadar também para cuidar da ansiedade e a primeira das minhas descobertas foi que eu ficava mais ansiosa dentro da água do que fora. Um dos principios básicos da natação é nadar olhando para o fundo da piscina e não para a frente. Isso me causava uma ansiedade absurda, porque ao invés de parar de pensar, eu começava a ficar pilhada pensando que não estava saindo do lugar, que ia afundar, que estava longe da chegada, que ia bater no colega com que dividia raia, e por ai vai. Claro, que com o tempo aprendi a administrar esses pensamentos (leia-se: fazendo terapia e ocupada tendo que pensar em todos os movimentos do nado crau que precisava fazer direito pra não beber tanta água). Isso me ensinou uma coisa muito importante: para avançar você não pode pensar tanto no que está do lado de fora da piscina. Já basta o esforço que você precisa fazer dentro dela. Se não nos concentramos, nos perdemos e temos que reiniciar tudo de novo.

Outro ensinamento é que não dá pra avançar olhando para a frente, para o ponto que ainda não chegou. Antes de dar a largada, você estabelece onde você quer chegar - esse é o seu momento de olhar para o futuro -, mas a partir do momento que você submergir, olhar para a frente só vai te atrapalhar, vai te causar ansiedade. Precisamos aprender a olhar para o fundo da piscina, ou seja, para o caminho que estamos pisando também chamado de presente. Ou você se concentra na evolução que está tendo hoje, ainda que seja um azulejo por vez, ou você vai distrair, esquecer de bater os braços e parar de nadar. A gente tem muito mais desenvoltura quando focamos no que estamos fazendo do que quando nos preocupamos com os resultados que teremos.

Além disso, aprendi o valor de errar. Quando crianças, nos ensinam que devemos fazer o certo sempre e nos punem quando erramos. Com isso, crescemos com medo de errar ou perder. Claro que precisamos fazer o que é correto sempre, mas errar faz parte do processo do acerto. Quantas vezes precisamos errar para acertar, ou precisamos perder para conquistar? Ainda mais quando estamos aprendendo uma coisa nova. Eu, aos 27 anos, precisei perder a vergonha e o medo de errar para aprender a nadar. Cada braçada mal dada, dificuldade de respiração, engasgo por engolir água, tudo isso é necessário para que eu consiga executar melhor o nado, mas o que me constrange? Saber que os outros colegas já sabem fazer o que eu ainda não sei.

Você já se perguntou o motivo de nos sentirmos tão bem quando uma pessoa não sabe algo que sabemos e temos que ensiná-la ou corrigi-la? Sempre queremos ser melhores do que os outros e quando isso não acontece, sentimos vergonha ou raiva. Esse contrangimento causado pelo desconhecimento de uma técnica ou uma ação nada mais é do que nosso ego aparecendo e se frustrando. Não sabemos lidar com o erro, porque temos a necessidade de acertar o tempo todo. Comparamos o tempo todo quem é melhor, quem tem mais, quem sabe mais. Essa comparação que é um ensinamento social nos limita. Errar está muito associado ao medo de não ser melhor que alguém. Esse era o meu contrangimento no início da natação, via tantos outros melhores do que eu que se deixasse a vergonha ou o medo me dominar, desistiria nas primeiras semanas.

Por fim, são muito os aprendizados da natação. É uma superação constante dos meus próprios limites. Nas coisas mais básicas da vida aprendemos de maneira inesperada. Hoje já nado bem melhor do que antes, mas ainda não sei como melhorar o nado no oceano da vida. A melhor técnica que descobri foi que tem que continuar, se errar, continua de onde parou. Reinicie quantas vezes precisar. Siga em frente e aprenda a não desistir. A parte boa é que eu estou mais hidratada do que antes de tanta água de piscina que bebo. De tudo isso, pouca coisa é sobre natação. Então siga o conselho da Dory que sabia o que estava falando: Continue a nadar! Continue a nadar! 

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