A dor crônica de quem sente

A dor crônica de quem sente

Kathléen Carneiro

    Ela chega sem aviso prévio. Com um desajeito, entra e já ocupa todo o espaço possível no ambiente. Não passa despercebida por ninguém, além de atrair para si toda a atenção. Do mais feliz ao mais triste, ninguém está imune aos seus efeitos. Isso acontece, principalmente, porque ela é gentil – mas nem sempre, às vezes tem a força de um soco no estômago. Ela acolhe a todos, brinca com as lágrimas, atravessa os sorrisos, se esquenta com a nostalgia. Assim, numa dança embalada pela trilha sonora do tempo, ela se ajusta ao peito e ali faz morada. Pode ser que dure minutos, horas, dias ou semanas, mas também pode ser que nunca vá embora. Para alguns ela é uma companhia constante. Do mesmo modo, ocupa todos os pensamentos possíveis. Expansiva que só ela. Calorosa ainda mais. Traz consigo questionamentos, memórias e até ressentimentos. “Acho que poderia ter sido melhor”. O que aquece também adormece, e se permanecer ali por muito mais tempo, enrijece tanto que chega a doer fisicamente. Essa é a dor de quem ama. A dor de quem quer continuar amando. A dor de quem quer se encontrar no outro. Um fenômeno extraordinário que é a dor crônica de quem sente e sente muito. Ela cabe em nós até não caber mais. Passa pela mente, pelo nó da garganta, pelo frio na barriga, pelo desarranjo intestinal, pela perna bamba, e refaz todo esse caminho até o peito. Ali se encontra com o coração e o abraça num aperto que só quem sente sabe como é o júbilo e a aflição de tê-la ali tão presente. Quando nada mais é suficiente para acalmar esse abraço apertado, só o encontro consegue resolver. 

    Ô, minha querida saudade, que faz morada em meu coração, me aperte com mais calma para que eu possa sobreviver até encontrar a outra parte de minha alma.


Comentários

Veja também